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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Conexão SAG 2010 - Lito Cavalcanti

A equipe SAG tem o prazer de trazer a segunda parte da entrevista realizado com Lito Cavalcanti, que vai impressionar a todos os amantes de automobilismo

SAG: Em sua opinião, qual foi à importância das conquistas de Emerson Fittipaldi para a Fórmula 1?

LC: Ele abriu os olhos da F1 para os países fora da Europa, mostrou que podiam surgir novos nomes saídos do mesmo continente que já revelara Juan Manuel Fangio e Froilan Gonzalez. Para nós, foi o grande pioneiro, mostrou que havia espaço para quem trabalhasse a sério. Ele mudou a F1 lá e aqui.

SAG: Como foi comentar a maior perda do automobilismo brasileiro em 1994 quando Ayrton Senna veio a falecer após o grave acidente na etapa de Imola?

LC: Naquele ano o SporTV não transmitiu a F1. Eu estava em Silverstone naquele dia, acompanhando a primeira temporada do Gil de Ferran na F3.000. Mas recebi pedido de matérias de diversas revistas daqui, trabalhei feito um louco, o que ajudou a deixar e emoção, fortíssima, de lado. Graças a Deus não comentei aquela corrida, não sei como seria.

SAG: Quais corridas que valeram o título a Ayrton Senna teve o modo de guiar mais competente e porquê?

LC: Ele sempre teve um jeito único de guiar, que era andar no limite o tempo todo. Mas se for para citar a vitória mais impressionante dele, acho que foi Portugal 1985, no Estoril, debaixo de um dilúvio. Foi com um Lotus com motor Renault turbo, um monstro que produzia mais de 1.000 (isso mesmo, mil) cavalos; e naquela época os carros não tinham a assistência eletrônica de hoje, como controle de tração, diferencial eletrônico, nada disso. O piloto só tinha o volante, os pedais e a alavanca de câmbio, cada um que fizesse seu melhor. Chovia torrencialmente, o Alain Prost chegou a bater em plena reta, e o Ayrton venceu, conquistando sua primeira vitória na F1. Era o início de uma lenda, e nós brasileiros, que já o conhecíamos desde o tempo do kart, sabíamos disso.

SAG: Como você analisa as mudanças ocorridas na segurança nos circuitos e até mesmo no capacete e carro do piloto na Fórmula 1, após o falecimento de Ayrton Senna?

LC: Vejo como decorrência daquele e de outros acidentes. A F1 precisava eliminar a imagem de esporte assassino, e passou a exigir essa necessaríssima evolução. Hoje, parece que se passaram 100 anos, tamanha a melhora da segurança dos carros, capacetes, macacões e, também, da segurança das pistas.

SAG: Com sua experiência, quais os circuitos atuais e que já fizeram parte das temporadas da Fórmula 1 que você acredita ser mais técnicos e desafiadores? E qual trecho mais prazeroso para os pilotos?

LC: O principal era o velho Nurburgring, com seus mais de 22 quilômetros; a primeira versão de sete quilômetros de Spa-Francorchamps; a Silverstone anterior às chicanes, com a curva Woodcote, na entrada da reta dos boxes, feita em quinta marcha (na época eram apenas cinco marchas) a pleno acelerador (para os melhores); o circuito antigo de Interlagos; o saudoso circuito do Rio de Janeiro; os circuitos de Buenos Aires; Zeltweg antes de se transformar em A1. São muitas pistas, e as mais prazerosas eram e são, sempre, as mais difíceis, as mais desafiadoras. Hoje ainda temos Suzuka como representante desta velha escola.

SAG: Em sua opinião, qual piloto brasileiro você acredita ser favorito a chegar mais longe na Fórmula 1, assim como Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna? E por quê?

LC: Você fala em campeões? Então não esqueça do Nelson Piquet, um dos grandes de todos os tempos. Na verdade, não vejo ninguém. Um campeão é um piloto que engloba diversas qualidades, todas imprescindíveis. Temos ótimos pilotos, como Rubinho Barrichello e Felipe Massa, mas eles não reúnem todas as qualidades. Podem até vir a se sagrar campeões eventualmente, mas não dá para dizerem que estão entre os melhores de suas épocas. E um campeão é isso, o melhor de sua época. Ou um deles.

SAG: Em sua opinião, com relação a atual safra de pilotos brasileiros que estão chegando a Fórmula 1, como Felipe Nasr, Luiz Razia dentre outros, acredita na possibilidade de se ver novamente dois brasileiros no pódio na Fórmula 1?

LC: Muitos têm potencial, mas daí a chegar lá há vários aspectos decisivos. São muitas as variáveis. O Felipe Nasr, o Adriano Buzaid, o Rafael Suzuki e o César Ramos são os que vejo com melhores chances, porque têm carreiras bem dirigidas, não erraram na escolha das categorias, não queimaram etapas, não ingressaram em categorias superiores antes de mostrar resultado nas menores. Os brasileiros, em geral, querem fazer um ano em uma categoria e subir no seguinte, mesmo não tendo feito nada. Parece que acreditam na baboseira de suas assessorias de imprensa. É como o aluno que só passa de ano raspando; ele pode até se formar, mas vai sempre se ressentir da falta de base e não vai ser um bom profissional. Tem outros que estão seguindo o caminho certo, que é sempre a F3, como o Gabriel Dias, o Pietro Fantin, o Lucas Foresti, o Luís Felipe Derani. Mas é preciso andar bem na F3 antes de passar para uma categoria maior. Tem piloto que nunca venceu um a corrida e no fim do ano sobe. Não tem o menor futuro, não aprendeu o que tinha de aprender.

SAG: Em sua opinião, como analisa o jogo de equipe realizado pela Ferrari favorecendo Fernando Alonso?

LC: Não gosto nada disso, mas tenho de admitir que sempre existiu. Nos anos 50, o segundo piloto era obrigado a ceder seu carro se o do primeiro quebrasse. E o Massa também se beneficiou disso, no GP da China de 2008 o Raikonnen cedeu o segundo lugar para ele, como ele cedeu a vitória para o Kimi aqui em 2007. Esquisito foi ele se surpreender. Não defendo a Ferrari, não acho legal esse hábito, mas ele existe. Esportivamente é repulsivo, empresarialmente é compreensível. E a F1 é esporte e disputa empresarial. Não há dúvidas sobre qual lado fala mais forte na Ferrari. Já a McLaren e a Red Bull têm seguido outros caminhos.

SAG: Quais ex-pilotos você considera como piloto rápido, excelente acertador de carro e mais regular numa corrida?

LC: Os três brasileiros que chegaram ao título tinham essas qualidades. Além deles, Stewart e Prost. Se formos falar dos atuais, Alonso, um superpiloto. Schumacher não é o melhor acertador, Hakkinen também não era. Tem tanto piloto que vem à cabeça que é melhor ficarmos nesses mais recentes.

SAG: Qual a sua avaliação sobre as equipes novatas Lotus, Virgin e HRT Racing nesta temporada da Fórmula 1?

LC: A Lotus tem o melhor corpo técnico e por isso se destaca. A Virgin é uma aposta nos softwares de dinâmica de fluidos como substitutos dos túneis de vento, o que um dia vai dar certo mas por enquanto é um pouco prematuro. Só é melhor do que a HRT porque o carro que a Dallara fez para os espanhóis é pouco mais do que um GP2. Faltou dinheiro antes do projeto estar pronto e, quando chegou a grana, o trabalho foi completado na base da pressa. Não podia mesmo dar certo.

SAG: Na proximidade do GP Brasil, você acredita que Felipe Massa possa se tornar o brasileiro com maior numero de vitórias em Interlagos?

LC: Não neste ano.

SAG: Como você analisa o retorno de Michael Schumacher as competições da Fórmula 1, após 3 anos afastados das pistas?

LC: Como uma tentativa válida. Ele andou bem no Japão. Será que não está em vias de um renascimento? Vamos esperar o ano que vem antes de enterrá-lo definitivamente. Mas admito que 2010 foi frustrante.

SAG: Na sua visão, a escolha de ex-pilotos para serem comissários trouxe algum beneficio para a Fórmula 1?

LC: Trouxe sim. Eu defendo essa tese há anos, cansei de falar sobre isso na TV, sempre pedi isso à CBA, mas nunca fui ouvido.

SAG: Já teve a oportunidade de estar dentro de um carro da Fórmula 1? Qual foi a sensação?

LC:Não, nunca tive.

SAG: Você acredita que Lucas di Grassi e Bruno Senna continuam na Fórmula 1?

LC: Tenho sérias dúvidas. Não pela capacidade deles, ambos têm plenas condições, mas pela situação de suas equipes, que têm de ir atrás de pilotos com patrocínios fortes para sobreviverem. Vide Yamamoto na HRT e d’Ambrosio na Virgin.

SAG: Quais os pilotos das outras categorias você gostaria de assistir pilotando um Fórmula 1?

LC: Gostaria de ver alguns da IRL, como o Franchitti, o Scott Dixon, o Tony Kanaan, o Victor Meira, a Bia, a Simona de Silvestro, o Helinho, que um dia viu o Button guiando e disse que nunca viu um piloto tão ruim...Mas tinha de ser no mínimo um Renault, um Williams, um Mercedes. Catraias não permitem se ver nada, como provou o Helinho ao ver o Button em um Honda.

SAG: Quais as expectativas para a temporada 2011 sobre as mudanças no regulamento técnico e no fornecedor de pneus?

LC: A de sempre. As equipes com mais verba na frente e o resto compondo o grid, ajudando a fazer o espetáculo. É sempre assim.

SAG: Quais suas expectativas para o automobilismo brasileiro na temporada 2011?

LC: Não muito altas. As equipes da Stock estão quase falidas, tem muito piloto ruim correndo porque pode pagar; a F3 rema, rema, rema e não sai do lugar. O restoe é categoria monomarca ou para banqueiros gordos brincarem de pilotos, só têm como qualidade abrir mercado de trabalho para os verdadeiros profissionais, que são os pilotos, engenheiros e mecânicos. Truck, desculpem, não considero automobilismo. E a FFuture espelha o que é o kartismo hoje, um deserto. Pode crescer, mas ainda demora um pouco. O que eu acho que pode ser legal é a recriação da Fórmula Vê pelo pessoal de Piracicaba, uma categoria barata para o amador, de onde podem sair novos profissionais.

SAG: Qual outra categoria brasileira você gostaria de comentar?

LC: Já trabalho muito, para mim está de bom tamanho. Faço F1, GP2, Stock Car e, de vez em quando, ainda sobra uma FFuture e um Troféu Linea. Raramente passo um fim de semana em casa.

SAG: Na sua visão, como está sendo o trabalho de Nelsinho Piquet em sua nova fase na carreira, agora na Nascar?

LC: Muito bom.

SAG: Além de Interlagos, quais outros circuitos poderiam receber categorias de expressão internacional? e que categorias poderiam vir para o Brasil além da F-1, WTCC e Indy?

LC: Curitiba já recebe; Brasília e Goiânia, se fossem bem cuidados, mas seria preciso que as prefeituras dessas cidades acordassem para o potencial econômico do automobilismo, o que insistem burramente em ignorar. Adoraria ver uma F3 mais forte, como foi nos fim dos anos 80 até 94, o que possibilitaria a repetição da boa iniciativa do Roberto Mourão e do Augusto Cesário de fazer um minitorneio de verão em Interlagos. E corridas de moto, que eu adoro.

SAG: O que a sociedade e as autoridades poderiam fazer para melhorar os Autódromos no Brasil?

LC: Dar-lhes condições mínimas de funcionamento. Uma corrida faz girar a roda econômica da cidade que a sedia. Traz dinheiro para o comércio, gera renda e impostos, cria empregos, traz exposição para a cidade. Para não ver isso não basta ser cego, é preciso ser muito, muito, imensamente pouco inteligente.

SAG: Em sua opinião, quais as razões para que a F-3 Sul-americana possua um grid tão pequeno?

LC: Ganância dos donos das equipes, marketing pobre, falta de competição internacional, falta de transmissão de televisão (por canais que tragam visibilidade real), cabeças pequenas. Para mim, isso não é consequência, e sim a razão da falta de patrocinadores fortes.

SAG: O Racing Festival, que foi implantado esse ano, tem tudo para se tornar um sucesso maior ainda, ou não vai durar muito tempo como a Fórmula Renault Brasileira que foi extinta há alguns anos?

LC: Não posso adivinhar, mas acho que dura uns três anos.

SAG: Qual recado você deixaria para os amantes de automobilismo que acompanham o Blog Stop andGo?

LC: Continuem acompanhando.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Conexão SAG 2010 - Lito Cavalcanti

A equipe SAG tem o prazer de trazer a primeira parte da entrevista realizado com Lito Cavalcanti, que vai impressionar a todos os amantes de automobilismo.
Lito Cavalcanti é comentarista do Sportv, um amante pelo automobilismo.

Stop andGo: Como surgiu seu interesse pelo automobilismo?

Lito Cavalcanti: Acho que nasceu comigo. Um dia, em 1962, fui assistir a um treino de uma corrida no circuito de rua da Barra, no Rio de Janeiro. Cheguei lá e a primeira imagem foi a Berlineta do Bird Clemente totalmente de lado, volante virado ao contrário para controlar a derrapagem de traseira, motor berrando. Naquele momento senti que minha vida teria de ser ligada àquilo.

SAG: Quem foi o maior incentivador em sua carreira?

LC: Primeiro, minha mulher, que na época era minha namorada e sempre me deu força para seguir o que meu coração mandasse. Mas quem me puxou para o jornalismo foi o Fernando Calmon, um dos melhores profissionais que conheci, sério e competente. Hoje ele só se dedica à área industrial e econômica, mas foi um dos pioneiros. Devo muito do que sei a ele.

SAG: Como profissional, qual foi sua primeira reportagem no automobilismo?

LC: Foi a cobertura dos Mil Quilômetros do Rio de Janeiro de 1967 para A Gazeta do Ceará. Nem tinha máquina de escrever (na época, computador nem em sonho), tinha de ser manuscrito. E como minha letra era ilegível, minha mulher escreveu tudo que eu ditei. Foi por correio e só foi publicada 15 dias depois. Mas o texto saiu integralmente, sem cortes nem modificações.

SAG: Todo jornalista esportivo às vezes passa pela rádio antes da televisão, com isso você já comentou alguma corrida no rádio? Quais as diferenças entre realizar uma transmissão na rádio para uma na TV?

LC: Já sim, comentei as 500 Milhas de Indianapolis de 1992 para a Eldorado e fiz outras colaborações, mas comentário só foi esse. Na TV é mais rígido, você tem de se ater às imagens; na TV, o vídeo comanda, no rádio é só o áudio.

SAG: Quem são seus ídolos no automobilismo?

LC:Ídolos? Quando você se aproxima dos pilotos, você vê que são humanos, têm qualidades e defeitos como todos. Há muitos que admiro por uma razão ou outra, mas não dá para ter ídolos. Tenho alguns amigos entre eles, mas não muitos.

SAG: Quais os maiores obstáculos que você enfrentou até chegar onde você está?

LC: Nada digno de nota. Um desemprego ou outro, como acontece com 99 por cento dos jornalistas.


SAG: Qual foi a maior realização em sua carreira?

LC: Minha primeira matéria na imprensa estrangeira. Foi em 1978, quando cobri, com texto e fotos, a primeira experiência do Jody Scheckter na Ferrari, sua nova equipe. Foi aqui em Interlagos, e cobri para a Autosport inglesa, da qual sou o correspondente no Brasil desde então, e para a Auto Hebdo, da França, de que fui colaborador por quase 20 anos.

SAG: Como aprendeu o funcionamento dos mais diferentes carros, das mais diferenças categorias?

LC: Apesar de ter me formado em direito, cheguei a estudar Engenharia Operacional, com especialização em Máquinas e Motores, por dois anos. O resto aprendi cobrindo corridas e convivendo com profissionais como o Calmon e o Expedito Marazzi (pai do Gabriel). Trabalhei muitos anos na Auto Esporte, e lá cobria também a parte de indústria, testava carros. Nos fins de semana de corridas, ficava nos boxes conversando com pilotos, mecânicos e engenheiros até de noite. Além de fazer amigos, aprendi o que é e como funciona um carro de competição.

SAG: Quais as qualidades que um profissional necessita para ser um bom comentarista de automobilismo?

LC: Antes de tudo falar português corretamente, o que não significa falar difícil, e sim com simplicidade e clareza para ser entendido. Ter voz clara, boa dicção. E saber do que fala, estar sempre atualizado, ter fontes de informações seguras. Em suma, estudar muito. O que é fácil quando se gosta do assunto.

SAG: Como foi o convite para ingressar na equipe do Sportv?

LC:O Dácio Campos, comentarista de tênis (esporte em que também trabalhei durante muitos anos), sugeriu meu nome para o Manduca Nogueira, filho do mestre Armando Nogueira, que dirigia o SporTV em 1994. Ele me chamou e estou lá até hoje.

SAG: Como é feita a escolha dos narradores para os eventos a motor da Sportv?

LC: Tem uma setorização. O principal é o Sérgio Maurício, que já correu de turismo no Rio de Janeiro, está sempre andando de kart (de corrida mesmo, não indoor) e conhece bem o assunto. Mas como é um narrador brilhante, também faz futebol, judô e principalmente vôlei, esporte que praticou na juventude e que o tem tirado das corridas nos últimos meses. Por isso, o Daniel Pereira vem narrando com mais frequência neste ano. É jovem, mas muito promissor. Seu estilo é trazer emoção para os eventos e promete muito.

SAG: Caso você não fosse comentarista, o que gostaria de estar fazendo?

LC: Nunca pensei nisso, estou muito feliz como comentarista. Gosto do trabalho, gosto do ambiente do SporTV, gosto da estrutura que eles me proporcionam.


SAG: Desde quando você acompanha a Fórmula 1? O que mais chama a sua atenção nessa categoria?

LC: Comecei a acompanhar a F1 em 1964, mas era muito distante. Só tínhamos a Auto Esporte, que cobria bem para os padrões da época, e a 4 Rodas, que dedicava menos espaço. Muito raramente saía uma nota de coluna em jornais. A F1 é o topo do automobilismo, lá estão os melhores pilotos, os melhores engenheiros e a melhor tecnologia. Isso sempre me fascinou, mas reconheço que, hoje, a competição em si anda meio sem graça. Só quem anima as corridas é o Kamui Kobayashi.

SAG: Qual foi a sensação de comentar a primeira corrida da Fórmula 1 de sua carreira? Quando foi e qual etapa?

LC: Ih, foi de incredulidade primeiro e depois de satisfação e orgulho. Foi no começo dos anos 70, na TV Tupi, o Grande Prêmio da Bélgica de 1972, em Nivelles. Adivinha quem ganhou? O Emerson Fittipaldi. Ele largou na pole position, e não me esqueço da cena dos mecânicos da Lotus varrendo a posição dele no grid para toirar a poeira e melhorar a tração do carro na largada. Quem devia comentar era o Calmon, mas eu trabalhava com ele em um programa chamado Grand Prix, que ia ao ar ao vivo às 11 da manhã dos sábados (na época não tinha VT). Como ele estava lá na Bélgica, sobrou para mim. Só voltei à TV em 1989, na Manchete, comentando a penúltima etapa da F3 sul-americana, em Curitiba. O narrador era o ótimo Luiz Carlos Largo, um velho e bom amigo que hoje está na ESPN.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Conexão SAG 2010 - Rodrigo Mattar

Rodrigo Mattar é editor dos programas Grid Motor e Linha de Chegada do Sportv e comentarista, tem 38 anos, carioca, criado em Ramos, e é um apaixonado por carros velozes de qualquer categoria dos quatro cantos do planeta.

Stop and Go: Quem foi o maior incentivador para sua carreira?

Rodrigo Mattar: Não tive um grande incentivador na família, a não ser meu pai, que no início dos anos 80 começou a comprar um monte de revistas – “Quatro Rodas” e depois “Auto Esporte” – pra mim. Nos tempos em que eram raras as transmissões – se não me falhe a memória, só passava na TV a Fórmula 1, a Stock Car e a Fórmula 2 Brasil, as revistas eram a tábua de salvação pra quem gostava de corridas. E ao ver pela primeira vez, de perto, ao vivo e a cores o GP do Brasil de 1981 no Rio de Janeiro, acho que me contaminei pelo vírus do automobilismo e foi daí que começou. Por isso as pessoas estranham quando digo que acompanho corridas há 30 anos. E é verdade: de 1979 pra cá não perdi mais nada.

SAG: Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

RM: Primeiro, ter podido entrevistar o Nelson Piquet quando eu era um mero “foca” do Jornal do Brasil em 1996. Depois, acompanhar in loco o GP do Brasil de Moto e as corridas da Fórmula Indy em Jacarepaguá. Mas o momento que mais guardo com carinho foi quando eu estava detrás das câmeras. Foi em 2001, na corrida de encerramento do Mundial de 500cc aqui no Brasil. A corrida foi interrompida no início em razão da chuva e começou a correria... quem sai na frente na segunda parte, que tipo de pneu os pilotos vão usar na segunda parte... e aí entrou no fone de ouvido do rádio o gerente de eventos da Globo, Emanuel Castro, um dos caras que mais acreditou no meu trabalho. E o que ele ia me pedindo, eu fui conseguindo. Era eu sozinho correndo atrás de tudo. No fim das contas, o Valentino Rossi venceu a corrida, foi sensacional e não se falou de outra coisa na época. Mas o mais legal foi que ele me chamou sozinho na comunicação e despejou uma torrente de elogios pelo trabalho e dedicação. Isso é raro e carrego isso no coração com carinho. Saí de férias alguns dias depois com a certeza do dever cumprido e que meu emprego estava garantido.

SAG: Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

RM: Sempre são os momentos em que bate aquela incerteza sobre o seu trabalho, quando a gente se questiona se certas coisas, certos sapos que nós engolimos, valem a pena. Passei por muita coisa do tipo e continuei firme. A última situação chata foi ter saído de um programa sem ter sido avisado. Acho que o mínimo que se espera numa empresa de comunicação é que se digam as coisas. Algumas decisões são estranhas. Mas a gente tem que assimilar, ganhar mais força e provar que conhece do assunto.

SAG: Qual a reportagem mais emocionante que você realizou como comentarista?

RM: Sem dúvida o GP do Brasil do ano passado, com aquele frisson todo em Interlagos na decisão entre Felipe Massa e Lewis Hamilton. Imagine você participar de um programa depois de uma corrida onde o piloto da Ferrari venceu, chegou a pôr a mão na taça por 20 ou 30 segundos e depois perdeu. Como diz um amigo meu, o silêncio em Interlagos depois que tudo terminou foi “ensurdecedor”. Foi muito legal fazer parte dessa história e presenciar a corrida mais sensacional disputada em Interlagos nos últimos anos.

SAG: Como é trabalhar com Reginaldo Leme e Lito Cavalcante no Sportv?

RM: O Reginaldo é meu ídolo! Quando comecei a ver Fórmula 1 como telespectador em 1979, ele já comentava as corridas na Globo. Depois a Bandeirantes pegou o Mundial do ano seguinte e eu não me lembro se ele continuou acompanhando a categoria. Mas em 81, com certeza, ele fazia as transmissões com o Luciano do Valle, então na emissora. E daí ficou até hoje... O que eu admiro no Reginaldo é o bom trânsito que ele tem com os pilotos, com os outros jornalistas, ele é muito bem relacionado. Como apresentador, eu acho que ele às vezes fica meio “preso”, muito tenso, mas ele melhorou muito durante todos esses anos. O Lito é outra fonte de aprendizado, sem dúvida alguma. A gente já teve umas escaramuças, coisa típica de quem às vezes parece incomodado com o galo novo chegando no galinheiro. Mas esclareceram pra ele que eu não queria tomar o lugar de ninguém. Nunca quis. Vim pra somar e quando eu entrei como comentarista em 2003, nem sonhava que isso fosse acontecer tão rápido. Eu mesmo sabia das minhas limitações, mas procurei aprender. E continuo aprendendo, dia após dia.

SAG: Qual a maior dificuldade que você já passou numa transmissão como comentarista e editor?

RM: As maiores dificuldades são com a falta de informação. Fica chato quando a gente fala uma coisa no vídeo e na realidade, muitas vezes a coisa é completamente diferente. Como fazemos transmissão “off-tube”, quase sempre o que falamos não é o que acontece. Nesse ano, durante a temporada da GT3, fui muito questionado por isso e chegaram a me pedir pra ‘bater’ menos na categoria. Desde que os organizadores façam por onde não receber críticas, eles serão criticados. E o campeonato desse ano chegou a ter corridas com oito, nove carros. Onde querem chegar aqueles que fazem uma categoria brasileira com tão poucos carros? Espero que pra 2010 esse campeonato melhore e as informações venham de acordo com o que queremos e desejamos.

SAG: Quem foi e quem é o seu ídolo no automobilismo?

RM: Nelson Piquet, como piloto, foi o melhor que vi até hoje. Pela capacidade de ganhar títulos com carros inferiores, pelo grande conhecimento de mecânica e por ser um dos grandes estrategistas de pista na Fórmula 1. Igual a ele nesse item, só o Schumacher. Como pessoa, Emerson Fittipaldi é um cara fantástico. Não conquistou dois títulos na F-1, duas 500 Milhas de Indianápolis e um título da Indy por acaso. E hoje o melhor piloto, pra mim, chama-se Fernando Alonso.
SAG: Como surgiu a idéia do nome do blog a mil por hora?

RM: Eu tinha um outro espaço, chamado “Saco de Gatos”, que era mais geral, abrangente. Quando veio a proposta do Emanuel Castro pra incorporar meu blog à frota da Globo.com, fui pensando em nomes. Um belo dia escrevi pra ele: “Que tal A Mil Por Hora?”. Ele gostou e foi assim que o blog entrou no ar no fim de abril do ano passado. De lá pra cá, já foram mais de 2.400 postagens. Escrevo pra burro!

SAG: Qual é a categoria que você mais gosta de comentar? E por quê?

RM: Eu amava comentar a Nascar! As transmissões eram geralmente longas, as corridas da Stock Car americana são muito loucas, tem muito piloto braço duro e outros que guiam uma enormidade. Era diversão pura e além disso criamos uma cultura de automobilismo que não era muito conhecida do público brasileiro. Afora os apelidos inventados: Raposa Felpuda (Mark Martin), Jeremias (Jeremy Mayfield), Carlos Eduardo dos Santos (Carl Edwards), Frajola (Michael Waltrip), DJ (Dale Jarrett), Gordito (Tony Stewart). Confesso a vocês que sinto muita saudade daquelas transmissões. Outro dia vi no Justin.TV a Daytona 400 em 2005 e pensei: “Meu Deus, como eu melhorei!”

SAG: Você já acelerou em algum carro de corrida (turismo ou monoposto)? E qual foi a sensação?

RM: Eu fui na carona, duas vezes, de dois Porsches. Andei no 996 com Ricardo Maurício e no 997 com o Max Wilson, dois botas da maior qualidade. E os dois não economizaram comigo dentro do carro. Da primeira vez, fui de macacão e tudo, foi uma experiência incrível. Como nunca tinha andado num carro de corrida, fui empolgado mas com o coração na mão. Quando o Max me levou de carona foi bem mais tranqüilo. Dei uma volta também de Stock com o Adalberto Jardim em 2007 na pseudopista de Jacarepaguá, num dos carros promocionais. Mas não gostei.

SAG: Qual categoria você gostaria de narrar ou comentar na Sportv? E por quê?

RM: Eu gostaria de fazer a Fórmula 1 e a GP2. Mas não sou eu quem decide isso. Vou dar tempo ao tempo e esperar a minha vez de poder fazer alguma transmissão dessas duas categorias.

SAG: Qual o momento mais triste que você comentou? E por quê?

RM: Foi a morte do piloto Rafael Sperafico, na última corrida da Stock Car Light em dezembro de 2007. Por tudo o que aconteceu naquele dia, onde os pilotos vinham se estranhando desde a primeira volta, uma carnificina como eu raramente tinha visto até aquela data. E porque foi um choque tremendo. Rafael era jovem, um bom piloto e eu narrara a última vitória dele na categoria em Campo Grande. Então foi tudo muito doído, muito doloroso. Eu me emocionei com tudo aquilo e depois que saí do prédio do Sportv chorei copiosamente.
SAG: O que você espera das categorias brasileiras na temporada 2010?

RM: Que sejam melhores do que foram em 2009 e que a chegada do Racing Festival organizado pelo Felipe Massa consiga elevar o nível do esporte por aqui. Estávamos carentes de uma boa categoria de base em monopostos e outra intermediária de turismo. Mas o grande problema que o país enfrenta, disparado, no esporte a motor, é a falta de bons autódromos. É vergonhosa a situação de Goiânia, Brasília, Cascavel, Guaporé, Tarumã, Caruaru, Fortaleza e, principalmente, do Rio de Janeiro.

SAG: Qual recado você deixaria para os amantes de automobilismo que acompanham o Blog Stop and Go?

RM: Continuem apoiando o esporte, porque só com a força de vocês ligados no automobilismo é que poderemos fazê-lo crescer. Participem independentemente de onde quer que seja. Um abraço a todos os leitores do blog!